Educação Financeira

Antecipar o 13º salário: quanto custa receber agora o dinheiro que chega em dezembro

A oferta chega pelo aplicativo do banco e parece um adiantamento do que já é seu. Na prática é um empréstimo pessoal, e o preço muda muito conforme onde você assina.

Dois colegas de trabalho conversando e rindo na copa do escritório, ao lado de um calendário de parede

A mensagem chega quase sempre com o mesmo desenho: um botão colorido, um valor já calculado e a promessa de que o seu 13º salário pode cair na conta hoje. Estamos em setembro, dezembro ainda parece longe, e a oferta soa como uma simples questão de data.

Não é. O que o banco coloca ali não é o seu 13º adiantado, é um empréstimo tomando o seu 13º como referência. A diferença entre receber agora e receber no fim do ano tem preço, quem paga é você, e dá para conferir esse preço antes de qualquer clique.

O que a lei já garante, sem juros nenhum

O 13º salário tem nome oficial de gratificação de Natal e nasceu com a Lei 4.090, de 1962. A conta é simples: um doze avos da remuneração de dezembro para cada mês trabalhado no ano, e todo mês em que você trabalhou 15 dias ou mais conta como mês inteiro.

O pagamento vem em duas partes, e isso está na Lei 4.749, de 1965. A primeira parte, que a lei chama de adiantamento, é paga entre fevereiro e novembro e corresponde à metade do salário do mês anterior. O restante entra até 20 de dezembro. Ou seja, uma parcela do seu 13º já está garantida por lei até o fim de novembro, sem nenhum custo, sem nenhum contrato novo.

Há ainda um detalhe que quase ninguém usa: pela mesma lei, quem pede ao empregador no mês de janeiro recebe esse adiantamento junto com as férias. É uma antecipação de verdade, feita por quem deve o dinheiro, e não por quem cobra juros para emprestá-lo.

Uma última observação sobre o valor: a primeira parcela costuma vir maior porque sai sem os descontos. A contribuição ao INSS e o Imposto de Renda incidem na segunda parcela, conforme lembra a Agência Brasil a cada dezembro. Contar com o 13º cheio nas duas metades é a origem de boa parte da frustração de fim de ano.

A oferta do banco é outro produto

Na maioria das instituições, antecipar o 13º é contratar um empréstimo pessoal não consignado, aquele que não tem desconto automático na folha de pagamento, com prazo curto e vencimento perto da data em que o dinheiro chegaria. Você recebe um valor agora e devolve esse valor acrescido de juros, tributos e tarifas depois.

Existe um número que reúne tudo isso e permite comparar propostas: o Custo Efetivo Total, o CET, que soma juros, tarifas, tributos e seguros numa única taxa anual. Ele não é cortesia do banco. Desde a Resolução 3.517, de 2007, do Conselho Monetário Nacional, a instituição é obrigada a informar o CET antes de você fechar a operação, junto com a planilha do cálculo. Se a proposta mostra só a parcela e não mostra o CET, falta informação para decidir, e você pode pedir.

Mesa de cozinha em manhã clara, com xícara de café, calculadora simples e envelope de pagamento aberto ao lado de um caderno

O mesmo empréstimo custa 1,3% ou 17% ao mês

Aqui está a parte que quase ninguém confere. O Banco Central publica, semana a semana, as taxas médias de cada instituição por tipo de crédito. Na semana de 19 a 25 de agosto de 2026, a lista de crédito pessoal não consignado trazia 79 instituições, com taxas que iam de cerca de 1,3% ao mês nas primeiras posições a 17,21% ao mês na última.

É o mesmo produto, no mesmo país, na mesma semana. Muda o lugar onde você assina.

Para ter uma referência do meio do caminho, a taxa média cobrada nessa modalidade foi de 6,42% ao mês em julho de 2026, o equivalente a 110,95% ao ano, segundo as estatísticas de crédito do Banco Central. É desse patamar que a maioria das ofertas de antecipação parte.

A conta, com números pequenos

Pense numa laranjeira que só dá fruto em dezembro. Quem compra a colheita antes de ela amadurecer sempre paga menos do que ela vale, e essa diferença é o preço da pressa. Antecipar o 13º é vender a sua colheita de dezembro com desconto.

Suponha que você antecipe R$ 3.000 em setembro e devolva em dezembro, três meses depois. A 1,7% ao mês, uma taxa parecida com as do topo da lista do Banco Central, os juros somam cerca de R$ 156. À taxa média de 6,42% ao mês, os mesmos R$ 3.000 pelo mesmo prazo custam cerca de R$ 616. E, nos dois casos, ainda entram tributos e tarifas por cima, que é justamente o que o CET revela.

Agora o efeito do tempo, que é onde a conta vira outra coisa. Se esse mesmo empréstimo de R$ 3.000 se estender por doze meses à taxa média de 6,42% ao mês, os juros passam de R$ 3.300, mais do que o valor emprestado. Não é maldade de ninguém, é o juro incidindo sobre juros, o efeito que chamamos de juros compostos, trabalhando contra você em vez de a seu favor.

Quando antecipar pode fazer sentido

Existe uma situação em que a conta muda: quando o dinheiro serve para apagar uma dívida ainda mais cara. Em julho de 2026, o rotativo do cartão de crédito, aquele saldo que fica rolando quando você paga menos que o valor total da fatura, cobrava em média 15,02% ao mês das pessoas físicas, o equivalente a 436,15% ao ano, também segundo o Banco Central.

Trocar 15% ao mês por 6% ao mês é uma economia real. Mas só funciona com duas condições, e as duas dependem de você: a dívida cara precisa ser efetivamente quitada com o dinheiro, e o cartão não pode voltar a rolar no mês seguinte. Sem isso, você fica com as duas dívidas em vez de uma.

Vale lembrar o outro lado da moeda. O 13º antecipado é um dinheiro que não estará lá em dezembro, quando chegam a matrícula escolar, o IPVA de janeiro e as festas. E o crédito segue caro no Brasil: a taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano, e o Comitê de Política Monetária do Banco Central se reúne nos dias 15 e 16 de setembro de 2026 para decidir os próximos passos. Qualquer queda demora a chegar nas taxas do varejo, e chega diluída.

O próximo passo, ainda hoje

Antes de aceitar qualquer oferta, faça duas coisas que levam poucos minutos. Peça o Custo Efetivo Total da proposta, por escrito, e compare a taxa com a lista pública de taxas por instituição no site do Banco Central. Se a diferença for grande, e ela costuma ser, você acabou de descobrir quanto vale pesquisar.

E faça a conta que decide de verdade: quanto do seu 13º já tem destino. Some as dívidas que vencem, o material escolar, o seguro do carro, tudo o que você sabe que chega entre dezembro e fevereiro. Reunir contas, faturas e lançamentos num lugar só, e é para isso que serve organizar o mês num aplicativo como o Fôlego, mostra em poucos minutos quanto do 13º já está prometido e quanto sobra. Muita gente descobre nessa hora que não precisava antecipar nada, só precisava enxergar o próprio calendário.

Glossário rápido

  • Gratificação de Natal: o nome oficial do 13º salário, um doze avos da remuneração para cada mês trabalhado no ano.
  • Adiantamento: a primeira parcela do 13º, paga pelo empregador entre fevereiro e novembro, sem juros e sem contrato de crédito.
  • Empréstimo pessoal não consignado: crédito sem desconto automático em folha de pagamento, o formato mais comum das ofertas de antecipação.
  • Custo Efetivo Total (CET): a taxa anual que soma juros, tarifas, tributos e seguros de uma operação de crédito, informada obrigatoriamente antes da contratação.
  • Rotativo do cartão: o crédito automático que começa quando você paga menos do que o valor total da fatura, historicamente o mais caro do mercado.

Fontes

  • Presidência da República, Lei 4.090, de 13 de julho de 1962, institui a gratificação de Natal: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4090.htm
  • Presidência da República, Lei 4.749, de 12 de agosto de 1965, prazos e adiantamento do 13º salário: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4749.htm
  • Banco Central do Brasil, taxas de juros de operações de crédito por instituição, semana de 19 a 25 de agosto de 2026: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/txjuros
  • Banco Central do Brasil, série 25464, taxa média mensal de juros do crédito pessoal não consignado, julho de 2026: https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.25464/dados/ultimos/12?formato=json
  • Banco Central do Brasil, série 25477, taxa média mensal de juros do rotativo do cartão de crédito para pessoas físicas, julho de 2026: https://api.bcb.gov.br/dados/serie/bcdata.sgs.25477/dados/ultimos/12?formato=json
  • Banco Central do Brasil, Resolução 3.517, de 2007, do Conselho Monetário Nacional, sobre o Custo Efetivo Total: https://www.bcb.gov.br/pre/normativos/res/2007/pdf/res_3517_v1_o.pdf
  • Banco Central do Brasil, taxa Selic e calendário de reuniões do Copom: https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic
  • Agência Brasil, descontos de INSS e Imposto de Renda na segunda parcela do 13º salário: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-12/segunda-parcela-do-decimo-terceiro-deve-ser-depositada-ate-dia-19
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